COELHO-BRAVO

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As populações de coelho-bravo existentes na Península Ibérica sofreram um declínio muito acentuado no final de 2012, com impactes significativos a nível ambiental e socioeconómico. As perdas acumuladas no sector cinegético foram muito consideráveis e a conservação de várias espécies com elevado estatuto de protecção ficou em risco.

Esta situação obrigou a uma intervenção imediata no sentido de se perceberem as causas e as consequências deste declínio, bem como averiguar que medidas mitigadoras e de recuperação se devem implementar, tendo o CIBIO e a ANPC desenvolvido o projecto SOS COELHO para dar resposta à situação.

 

Sobre o coelho-bravo

Apesar da sua ampla distribuição mundial, o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) é originário da Península Ibérica, onde coexistem actualmente duas subespécies: Oryctolagus cuniculus algirus (O. c. algirus), presente no Sudoeste da Península Ibérica e Oryctolagus cuniculus cuniculus (O. c. cuniculus), que ocupa o Nordeste desta região. A distribuição das duas subespécies sobrepõe-se ao longo de uma zona de contacto que atravessa a Península numa direcção Noroeste-Sudeste.

Independentemente da subespécie, o coelho-bravo é uma espécie basilar nos ecossistemas ibéricos, sendo a presa fundamental e preferencial para a maior parte dos predadores que ocorrem em Portugal, incluindo várias espécies de carnívoros (mamíferos e aves) com elevado estatuto de conservação, das quais se destacam o lince-ibérico, o gato-bravo (Felis silvestris), a águia-imperial (Aquila adalberti) e a águia-real (Aquila chrysaetos). É igualmente uma espécie com elevada importância socioeconómica, sendo a espécie de caça menor preferida dos caçadores portugueses, gerando receitas muito significativas para as entidades gestoras de zonas de caça e para a economia local, constituindo, nalguns casos, a sua principal fonte de rendimento.

O Livro Vermelho dos Vertebrados em Portugal classifica o coelho-bravo como espécie «Quase ameaçada», devido aos recorrentes episódios de declínio a que a espécie tem estado sujeita nas últimas décadas. Não obstante, graças à sua estratégia reprodutiva, na presença de condições favoráveis, o coelho-bravo pode evidenciar recuperações espantosas.

 

Sobre a Doença Hemorrágica Viral

A Doença Hemorrágica Viral (DHV) é causada por um calicivírus, tendo sido detectada pela primeira vez na Península Ibérica em 1988. Os surtos iniciais da doença causaram mortalidades elevadíssimas nas populações de coelho-bravo, próximas de 55-75% em toda a Península Ibérica. Desde então, a doença tornou-se enzoótica, com surtos sazonais que continuam a provocar mortalidades consideráveis e, portanto, a regular de forma importante as populações de coelho-bravo. A forma clássica desta doença afecta essencialmente coelhos adultos (> 2 meses de idade), o que de certa forma protege o recrutamento de novos indivíduos para as populações. Embora tenha sido desenvolvida uma vacina com elevados níveis de protecção contra a DHV, a vacinação de populações selvagens é impraticável, o que limita o combate à propagação da doença no campo.
Todas as estirpes do vírus da DHV isoladas até à data pertenciam à forma clássica da doença.
No entanto, surgiu recentemente uma nova variante do vírus, geneticamente distinta das formas clássicas. Esta nova variante foi detectada inicialmente em Setembro de 2011 em Espanha, e posteriormente em Novembro de 2012 em Portugal, tendo ocorrido reincidências graves em Março e Outubro de 2013. Informações recentes obtidas junto de agentes locais indicam que estará neste momento a verificar-se um novo surto com mortalidades muito acentuadas. Esta nova variante caracteriza-se por, além de afectar a população adulta, causar também mortalidade em coelhos juvenis (<2 meses) e em coelhos vacinados contra a forma clássica da doença.

 

Impactes da nova variante da DHV

Os surtos desta variante têm provocado reduções na generalidade das populações selvagens de coelho-bravo em toda a Península Ibérica, com impactes ao nível ecológico e socioeconómico. Mesmo em cuniculturas onde, até à data, as acções profiláticas protegiam os coelhos domésticos, têm-se verificado fortes prejuízos, uma vez que a nova variante da DHV pode ser letal mesmo para coelhos vacinados contra a forma clássica da doença.
No sector cinegético, a quebra abrupta das populações de coelho-bravo teve consequências socioeconómicas muito severas a nível nacional, com prejuízos estimados em dezenas de milhões de euros.

 

Consequências para a conservação de espécies protegidas

Ao nível da conservação da biodiversidade, dados preliminares indicam que a redução drástica das populações de coelho afectou directamente as comunidades de predadores, através da súbita diminuição do seu principal recurso alimentar. Estas reduções parecem ter produzido sérias alterações ao nível da dieta, através da necessidade de exploração de presas menos energéticas. Tais alterações têm sérias consequências negativas na conservação dos predadores a diversos níveis, nomeadamente no sucesso reprodutivo, condição física, relações inter e intra-específicas e ecologia espacial (domínios vitais) de exemplares estabelecidos em território Nacional. Exemplos destas alterações, e que foram possíveis de detectar, ocorreram com a águia-imperial e a águia-de-bonelli (Aquila fasciata; espécies prioritárias para a conservação) que, aparentemente, terão substituído parcialmente o coelho por outras espécies-presa como a lebre, a perdiz e os pombos. No entanto, os benefícios energéticos obtidos pela captura destas espécies-presa (e provavelmente as taxas de predação) são inferiores aos obtidos pela predação sobre o coelho. Esta alteração na dieta será muito provavelmente a principal causa para o reduzido sucesso reprodutivo destas duas aves de rapina, quando comparado com o dos anos anteriores.
Uma consequência adicional da diminuição dos recursos alimentares para os predadores prende-se com a necessidade que estes têm em estabelecer territórios maiores, de modo a reunirem condições adequadas para a sua sobrevivência e reprodução. A redução drástica da sua principal espécie-presa (o coelho-bravo) conduz, numa primeira fase, ao aumento da dimensão dos territórios defendidos pelos indivíduos (e consequente diminuição da população residente), culminando com o abandono desses territórios e levando à extinção local, caso não se inverta a tendência de declínio do coelho-bravo. Dados preliminares indicam que esta situação poderá estar a ocorrer na região do Vale do Guadiana, onde até ao momento se tem vindo a estabelecer uma população residente de águia-imperial, cuja viabilidade poderá estar neste momento ameaçada.
O facto das consequências das reduções drásticas de coelho-bravo estarem a ser notadas particularmente nas aves de rapina, deve-se fundamentalmente ao facto de estas constituírem os intervenientes mais conspícuos. Os efeitos de uma depressão súbita de coelho-bravo são, na realidade, muito mais profundos, afectando toda a biodiversidade e funcionamento dos ecossistemas, nomeadamente a estrutura da paisagem, diversidade de flora, densidade e diversidade de outras presas, de mamíferos carnívoros, e de aves de rapina nocturnas e diurnas.

 

Outras espécies afectadas pela DHV

Paralelamente ao decréscimo de coelho-bravo, ocorreu também um acentuado declínio das populações de lebre-ibérica (Lepus granatensis) em território Nacional, sendo que o CIBIO determinou recentemente a infeção das lebres-ibéricas por esta nova variante do vírus da DHV, como já foi confirmado em Itália com a Lepus capensis.