DOCUMENTAÇÃO

BIBLIOGRAFIA RELEVANTE | COELHO BRAVO

Delibes-Mateos M, Ferreira C, Carro F, Escudero MA, Gortázar C (2014) Ecosystem Effects of Variant Rabbit Hemorrhagic Disease Virus, Iberian Peninsula. Emerging Infectious Diseases 20(12): 2166-2168.

Neste trabalho foram detectadas evidências dos aparentes efeitos que a nova variante do vírus de doença hemorrágica do coelho (RHDV) está a produzir nas populações nativas de coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) na Península Ibérica, e como este vírus pode ameaçar a conservação de espécies de predadores ameaçados.
Em 2011 uma nova variante de RHDV, aparentemente muito relacionada com uma variante isolada pela primeira vez em França em 2010, foi responsável por elevadas taxas de mortalidade em várias cuniculturas em Espanha. Desde 2012 que a nova variante de RHDV tem vindo a ser detectada na maioria das cuniculturas em Espanha, bem como em populações naturais tanto em Portugal como em Espanha. Este facto, sugere que o vírus se terá disseminado rapidamente por toda a Península Ibérica. Esta variante afecta as duas subespécies de coelho-bravo (O. cuniculus cuniculus e O. c. algirus) e, ao contrário da forma clássica do vírus, afecta mortalmente juvenis e adultos vacinados contra a forma clássica do RHDV. Os declínios verificados nas populações nativas de coelho-bravo, decorrentes da nova variante da RHDV, podem ter efeitos graves no funcionamento dos ecossistemas. Estes efeitos podem já ser observados em espécies que dependem diretamente deste lagomorfo. Por um lado, a drástica redução populacional de coelho-bravo observada em 2013 nas principais áreas de distribuição de lince-ibérico (Lynx pardinus) foi acompanhada por uma redução no número de crias de lince nascidas essa época. Por outro, devido à escassez de coelho-bravo, o aumento das deslocações de linces levou à duplicação do número de animais mortos por atropelamento em 2013.
A situação descrita exemplifica como doenças emergentes podem afectar diretamente a conservação da natureza e enfatiza a importância de programas de monitorização adequados como sistemas de detecção dos impactos de factores estocásticos nas populações animais, como é o caso da nova variante de RHDV. É urgente a implementação de medidas de atuação, desenvolvidas no âmbito de uma estratégia Ibérica para a conservação do coelho-bravo e assente num modelo multidisciplinar, para assegurar a conservação desta espécie chave nos ecossistemas ibéricos, bem como dos seus predadores.
Este trabalho pode ser consultado em: http://wwwnc.cdc.gov/eid/article/20/12/14-0517_article

 

Lopes AM, Correia J, Abrantes J, Melo P, Ramada M, Magalhães MJ, Alves PC, Esteves PJ. (2014) Is the new variant RHDV replacing genogroup 1 in Portuguese wild rabbit populations? Viruses, 7(1):27-36. doi: 10.3390/v7010027.

O vírus da doença hemorrágica viral (vDHV) do coelho, um Lagovirus da família Caliciviridae, afecta severamente as populações de coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) ao causar a doença hemorrágica viral (DHV). Seis grupos genéticos estão descritos para o vDHV, G1-G6, sendo o G1 característico da Península Ibérica. Mais recentemente uma nova variante deste vírus emergiu com características genéticas e antigénicas distintas. Neste estudo foram analisados coelhos encontrados mortos no campo em Portugal entre 2013 e 2014 para determinar a prevalência desta nova variante e de estirpes virais G1. A presença do vDHV foi determinada para 57 amostras de fígado e as amostras positivas foram genotipadas. Em todos os casos positivos foi detectada a nova variante, não tendo sido detectado nenhum caso G1. Estes dados indicam que em Portugal o grupo genético G1 foi substituído pela nova variante do vDHV, provavelmente por esta última apresentar algum tipo de selecção adaptativa. Esta rápida substituição realça a importância da monitorização continuada das populações selvagens de coelho.
Este trabalho pode ser consultado em: http://www.mdpi.com/1999-4915/7/1/27

 

Lopes AM, Dalton KP, Magalhães MJ, Parra F, Esteves PJ, Holmes EC, Abrantes J. Full genomic analysis of new variant Rabbit Hemorrhagic Disease Virus (RHDVb) revealed multiple recombination events. J Gen Virol. doi: 10.1099/vir.0.000070.

A doença hemorrágica viral (DHV) do coelho foi documentada pela primeira vez em 1984 na China e rapidamente se dispersou para outros países. Em 2010, emergiu uma nova variante deste vírus, designada RHDVb ou RHDV2. O RHDVb caracteriza-se por afectar coelhos vacinados e coelhos juvenis <2 meses de idade e é geneticamente distinta das estirpes virais mais antigas apresentando ~20% de divergência. Para determinar a evolução do vDHV, incluindo da nova variante, foram sequenciados 28 genomas completos de vDHV de amostras recolhidas entre 1994-2014. A análise filogenética do gene que codifica a proteína da cápside, VP60, mostrou que todos os vírus amostrados entre 2012 e 2014 são RHDVb. Nos genomas mais recentes de RHDVb foram detectados múltiplos eventos de recombinação com um ponto de recombinação localizado imediatamente antes do início do gene da VP60. Este ponto de recombinação divide o genoma em duas regiões: uma que inclui as proteínas não estruturais e outra composta pelas proteínas estruturais VP60 e VP10. Análises filogenéticas adicionais de cada uma destas regiões revelaram a existência de dois tipos de vírus recombinantes. Os dois tipos incluem sempre as proteínas estruturais de RHDVb, mas as proteínas não estruturais derivam de (1) estirpes não-patogénicas ou (2) estirpes patogénicas G1. Estes resultados demonstram que a recombinação desempenha um papel importante na história evolutiva do RHDVb ao contribuir para a criação de diversidade.

Este trabalho pode ser consultado em: http://vir.sgmjournals.org/content/early/2015/01/27/vir.0.000070.long

 

Dalton KP, Abrantes J, Lopes AM, Nicieza I, Álvarez ÁL, Esteves PJ, Parra F. (2015) Complete genome sequence of two rabbit hemorrhagic disease virus variant b isolates detected on the Iberian Peninsula. Arch Virol. 160(3):877-81. doi: 10.1007/s00705-014-2329-3.

Neste trabalho reportam-se as sequências de dois genomas completos (N11 e CBVal16) de estirpes da nova variante (RHDVb) da doença hemorrágica viral (DHV) do coelho. A estirpe N11 foi isolada de uma amostra recolhida de um coelho jovem durante um surto de doença hemorrágica viral que ocorreu em 2011 numa cunicultura em Navarra, Espanha. A estirpe CBVal16 foi isolada dum coelho bravo encontrado morto no campo em Valpaços, Norte de Portugal, em 2012. As sequências reportadas têm 84.8-85.1 % e 78.3-78.5 % de similaridade com as estirpes RHDVAst/89 e RCV-A1 MIC-07, pertencences ao grupo patogénico G1 e ao grupo de calicivirus não-patogénicos, respectivamente. Em comparação com estirpes virais pertencentes aos grupos genéticos G1-G6, a nova variante apresenta diferenças fenotípicas marcantes uma vez que provoca DHV em coelhos juvenis (<40 dias de idade) e tem um perfil de hemoaglutinação distinto. O RHDVb apresenta ainda diferenças antigénicas que lhe permitem escapar à protecção conferida pelas vacinas actualmente disponíveis.
Este trabalho pode ser consultado em: http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00705-014-2329-3